domingo, 25 de setembro de 2011

PRESENTE DE DOMINGO...














PEÇO SILÊNCIO

Pablo Neruda

Agora me deixem tranquilo,
Agora se acostumem sem mim.

Eu vou cerrar os meus olhos

Somente quero cinco coisas
Cinco raízes preferidas

Uma é o amor sem fim.

A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
voem e voltem à terra.

A terceira é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia do fogo
no frio silvestre.

Em quarto lugar o verão
redondo como uma melancia.

A quinta coisa são os teus olhos,
Matilde minha, bem-amada,
Não quero dormir sem teus olhos,
não quero ser sem que me olhes,
Eu mudo a primavera
para que me sigas olhando.

Amigos, isso é quanto quero
É quase nada e quase tudo.

Agora, se querem, podem ir.

Vivi tanto que um dia
Terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro-negro,
Meu coração foi interminável.

Porém, porque peço silêncio
Não creiam que vou morrer,
passa comigo o contrário,
Sucede que vou viver.

Sucede que sou e que sigo.

Não será, pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
Primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
Porém a mãe terra é escura,
e dentro de mim sou escuro,
Sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
E segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
Que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,
Nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.

Me deixem só com o dia.
Peço permissão para nascer.

Fonte: http://clube.atrativa.com.br/player/madridd1997/blog/170989

Um comentário:

PEDRO PAULO PAULINO disse...

Lindo poema, Fatita. Vc sempre garimpando pérolas para os leitores do seu blog. Parabéns e ótimo domingo!