quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico


A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.  

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. 

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)


ELIANE BRUM













Jornalista, escritora e
documentarista. Ganhou mais
de 40 prêmios nacionais e
internacionais de reportagem.
É autora de um romance -
Uma Duas (LeYa) - e de três
livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda
(Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê
(Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007)
e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois
documentários: Uma História
Severina e Gretchen Filme
Estrada.


Imagem da charge: Google

6 comentários:

Anônimo disse...

A história dessa parábola é a mais pura realidade, muitos fiéis são tão voláteis e ignorantes sobre suas próprias crenças que são capazes de ficar pulando de religião em religião sem perceber que não há como acreditar em um pouco disso e um pouco daquilo. Ou você acredita em algo ou não. Sem falar na intolerância, tenho 14 anos, nunca consegui acreditar em deus, minha família não me aceita e na escola tenho problema com dois professores que me tratam como se eu tivesse algum tipo de doença mental. Ser ateu é muito fácil, não precisa frequentar cultos ou pagar dízimos, só precisa de um cérebro e vontade de pensar, mais nada.

lfbengo disse...

Desculpe se interpretei errado, mas o motorista se mostrou ignorante não porque você é atéia e sim por não ser da religião dele. Ele faria isso com qualquer um que não estive dentro do que ele acredita.
Sou universalista e acho que as pessoas tem direito de escolherem suas crenças ou não, mas essa atitude tenho visto também em relação aos Ateus que cada dia mais se colocam como seres superiores por não crerem em Deus. Por isso o ser humano não vai prá frente mesmo.

Anônimo disse...

Como é bom poder fazer nossas próprias escolhas.O melhor é viver bem com essas escolhas sem se importar com que há em volta.
Felizes os poucos que conhecem a verdade.Deixem essas pessoas pra lá
não vale a pena.Sabe com relação a jornalista, lá vai uma dica,compre uma lanterninha, ai ela continua lendo o que é mais importante.
Ótima matéria e parabéns pela abordagem.

Aline Araújo disse...

Olá, concordo plenamente com o texto. Nós ateus estavamos aos poucos tendo a possibilidade de abertamente declarar nosso ateísmo, sabendo sim, que sofreriamos com alguns "narizes torcidos". Os católicos se tornaram mais tolerantes com as diferenças. Porém os evagelicos estão cada vez mais intolerantes e ameaçadores. Até por conta disso, sinto o retorno de muitos católicos não-praticantes a igreja. O que tenho incluisive percebido, é que eles próprios estão sendo vítimos dos fanáticos evangélicos. tenho sinceramente, medo do que o Brasil possa se tornar com esse crescimento da intolerância evangélica.

Anônimo disse...

Olá Fatita, Saudações! Me interessei em postar aqui meus comentários, pois aprecio muito a utilização da liberdade de expressão. Meu nome é Claudio, sou pastor evangélico à mais ou menos 8 anos e acredite, já vi muitas coisas que, no mínimo, são bem estranhas dentro desse mundo religioso ao qual faço parte. Concordo que em grande parte dos ensinos que se ministram nessas igrejas, poucos são os que entendem o escopo da mensagem, isso em um contexto geral, e consequentemente é menor o número dos que praticam da maneira como deveria ser. Sabemos que toda a "logia" caminha em evolução contínua, podemos tomar como exemplo simples, a antiga definição dada pela ciência à menor partícula Átomo, que hoje sabemos que é divisível, outrora se afirmasse o contrário. De uma forma simples, podemos estabelecer que, a maioria dos ateus por não acreditarem na existência de um Deus ou deuses em um mundo superior ao que vivemos, não significa que não acreditam em mais nada e que da mesma maneira que o racionalismo evolui dando também suas tropeçadas, também o entendimento acerca da fé vai se tornando mais refinada. Na verdade é fato que muitos líderes religiosos, digo evangélicos, têm corroborado para uma imagem negativa daquilo que deveria ser a expressão do amor, da caridade, a verdadeira meta de uma entidade Filantrópica que é a igreja. O jornalista Joelmir Beting disse mais ou menos assim: "Para aqueles que não acreditam, nenhuma explicação basta e para aqueles que acreditam, nenhuma explicação é necessária."
O Apóstolo Paulo disse:
"A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens. Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens. Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Romanos 12: 17 ao 21
prcsr@hotmail.com

LUCIO-X O POETA DO CONTERRANISMO disse...

Não acredito totalmente nesta matéria. ela parece 'meio forjada'...

Mesmo porque na minha humilde opinião, exixtem mais pessoas não cristãs que cristãs,,
Basta ver: Uma midia e um sistema de ensino iluminista ou racionalista, todos os jornais do país com a 'obrigação de ter uma coluna de horóscopo, a cultura e as religiões esotéricas que crescem cada dia mais, os filmes e desenhos animados que são criados segundo uma arte não cristã, a cultura do samba e do axé e do futebol, que é cadomblecista, milhões de espiritas, a alta sociedade maçom, que está no topo da cadeia de comando da sociedade brasileira, etc...
aliás, a cultura evangélica, ou os próprios evangélicos são tais como uma ilha ideológica cercada por um mar de ideologias não criatãs...
um pequeno sião cercado por todos os lados por uma poderosa matrix, que quer absorve-lo ou destruí-lo...

Não digo que tenha sido assim, mas a jornalista poderia muito bem ter 'inventado' essa suposta corrida de taxi e esse taxista bitolado, e fanático para justificar sua aversão aos evangélicos ou 'crentes' e denegrir a imagem de um evangélico - ou dos seculares protestantes - em rede mundial, com uma postagem unilateral onde não se tem a mínima certeza se tal fato aconteceu ou não.

isso é comum no Brasil, onde a intolerância contra os cristãos fomenta esse tipo de crônica contra os 'crentes' e cresce cada dia mais, por culpa, não dos ateus ou anticristãos modernos e midiaticos, mas por causa de uma bem elaborada manobra de forças corporativas da sociedade que apregoa a nova era - era de aquério - o o fim da éra de peixes - erá cristã...

cabe a nós, os seres humanos, pensar e repensar sobre tudo isso...
se é o que realmente queremos para todos nós como humanidade livre e soberana de nossas vontades e opiniões.

P.S: NÃO SOU EVANGÉLICO.
SOU APENAS UM SER HUMANO LIVRE.

LUCIO-X
POETA DA CULTURA OXENTE,
DECODIFICADOR E PENSADOR DO CONTERRANISMO