sexta-feira, 30 de agosto de 2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013

domingo, 25 de agosto de 2013

PRESENTE DE DOMINGO...

TENHO MEDO

Angélica Teresa Almstadter

Tenho medo de não ter medo,
E avançar o mundo das misérias,
Me perder na fila da fome,
E sem medo de desvendar segredos;
Ser condenada ao degredo,
Exilada na palavra,
Caminhar sobre brasas acesas,
Ser depósito de esperanças cegas;
A nadar de peito aberto, sem nunca espraiar

Tenho medo de ter medo,
E não denunciar a violência que campeia,
Pactuar com a demência que me rodeia,
Ser um verbo mudo;
Um folhetim barato, anônimo,
Sem nome e sem pseudônimo;
Me ver confundida na multidão calada;
Ginuflexa e mãos atadas
Olhando para o nada.

Tenho medo da omissão,
De não ser ponto de referência,
De perder a paciência,
De me ausentar da obrigação;
Fazer pouco caso da minha razão
Me alienar da verdade,
E prostrada na ansiedade
Perder minha identidade.



sábado, 24 de agosto de 2013

PORQUE HOJE É SÁBADO...

O Hospital Napoleão Laureano tem 90% do seu atendimento voltado para pacientes do SUS.

Em 2012. 400 mil procedimento de alta e média complexidade fizeram parte da sua tabela de exercício anual.

Doe e ajude-nos a manter essa meta.


Telefone: 83-3015-6200

Veja abaixo como doar.



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

domingo, 18 de agosto de 2013

PRESENTE DE DOMINGO...

OUTRAS TROVAS

Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.

Quem é pobre, sempre é pobre,
quem é pobre, nada tem;
quem é rico sempre é nobre
e às vezes não é ninguém...

Tenho tosse no cabelo,
dor de dentes no cachaço,
sinto canseira nas unhas,
não vejo nada de um braço.

Encontrei o dá e toma
na rua do toma lá;
inda não vi dá sem toma,
nem toma sem deita cá.

Se onde se mata um homem
pôr uma cruz é preceito
tu deves trazer, Maria,
um cemitério no peito.

Os rapazes de hoje em dia
são falsos como melão:
tem de se partir um cento
para se encontrar um são.

O amor dum estudante
não dura mais que uma hora:
toca o sino, vai pra aula,
vêm as férias, vai-se embora.

Eu não quero, nem brincando,
dizer adeus a ninguém:
quem parte, leva saudades,
quem fica, saudades tem.

Vou deitar a despedida,
por hoje não canto mais;
já me dói o céu da boca
e o coração inda mais.

Mais um pouco da pureza das Trovas de autores desconhecidos, umas com sabor de poesia popular e tradicional, tocadas às vezes de leve ironia, extraídas do livro "Humor e Humorismo", de Idel Becker, Editora Brasiliense - São Paulo, 1961, pág. 24.



sábado, 17 de agosto de 2013

PORQUE HOJE É SÁBADO...

CRÔNICA DO DIA: SOLTEIROS NA PISTA

Jace Theodoro fala da vida dos que não arrumaram a alma gêmea

JACE THEODORO (JACETHEODORO@UOL.COM.BR)

Eles estão ganhando as tábuas do IBGE com a mesma força que Moisés empunhou a tábua dos 10 Mandamentos. Eles, os que ainda não encontraram a tampa da vasilha de Tupperware perdida no armário, não chuparam a metade da laranja porque detestam sabores cítricos e para quem a cara-metade sempre precisará de uns reparos à Pitanguy. Eles, esses insatisfeitos. Senhoras e senhores, casados e amancebados do Brasil, eu vos apresento os solteiros.

O último Censo revelou que o número de solteiros está na casinha dos 90 milhões, sabe você o que é isso, nobre leitor? Pois uma amiga (Soltinha para os íntimos), solteira desde as caravelas, nega-se a dizer o estado civil ao recenseador. “Casada”, responde com firmeza de quem já fez bodas de diamante, na eterna negação de entrar para a estatística das encalhadas. Se no questionário houvesse a opção pegadora, Soltinha não hesitaria. Solteirona, jamais.

Agora que sabemos que os solteiros no Brasil caíram para 89. 999.999, graças à mentirinha da amiga, vamos a essa turma. Há os que são convictos e não querem amarrar seu burro em nenhuma sombra. Há os que esperam encontrar a alma gêmea, talhada à perfeição, mas não foram avisados que, em terra de sapo, o príncipe foi pro brejo faz tempo.

Solteiros aparentam uma felicidade, diferente daquela da Clarice, nada clandestina. Não ter de avisar a ninguém que você vai à padaria é o céu, pensava com fervor, quando não tinha a quem prestar contas. Era de uma liberdade infinita o simples fato de comprar a bisnaga e o leite sem narrar meu percurso no post it da geladeira.

O fato é que não pertenço mais aos números dos quais Soltinha não quer fazer parte nem que lhe falte o pãozinho de Santo Antônio. Muitos são como ela, cheios de amor pra dar. Se for de papel passado num cartório ou no altar com aliança, buquê e bolo de cinco andares, adeus, vida marvada e solitária. Depois desse rito de passagem, nem no alto verão o cobertor de orelha será dispensado.

Há os que, por outro lado, são atacados pelo bruxismo noturno ao ouvir a palavra casamento. Festas sem hora pra voltar, fins de semana com roteiro traçado ao sabor dos ventos, lavar a louça na hora que der na veneta são seus esportes prediletos. No máximo, um cachorro pra tomar conta. Isto, se o auau encarar suas cuecas e calcinhas jogadas no chão do banheiro. As minhas têm horror desse pesadelo, pedem clemência.

Com o jeito-single-de-ser na moda, os imperadores do marketing  entraram em ação. No meu tempo de solitário preferencial, não tive a sorte de ser contemplado com os mimos atuais das embalagens de uma porção. Comprar comida, sempre no modelo plus size, era prejuízo à vista. A lasanha murchava no terceiro dia, a dúzia de ovos durava 40 dias na geladeira com pintos pedindo pra sair da casca e o queijo branco entrava na estatística de pardos e pretos.

Hoje, a vida de solteiro é um Paraíso na terra ou um inferninho hipster, a depender da tribo da solteirice. Há sites facilitando encontros pra quem quiser tirar o pé do lodo ou desencalhar, pra ser mais claro. Solteiros do Forró, Cristãos Solteiros e Encalhadas em Desespero são algumas das opções que o leitor pode conhecer com dois cliques no mouse e muita coragem pra encarar um bailão risca-faca.

Mesmo com a tábua do IBGE dando ganho de causa a essa turma, eu sou mais pela prática dos enforcados na talba de tiro ao álvaro do Adoniran. Casar pode acabar num samba dos bons, mas quem prefere o tal forró bate-coxa aí de cima é só fazer promessa pra Santo Antônio, codinome Google.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

PRESENTE DE DOMINGO...


EXÉQUIAS SATÍRICAS DE UM ATEU

Herculano Alencar


Cético: foi um ateu de nascimento!
Nunca orou pra Deus, o criador;
nunca falou em nome do Senhor
e nunca obedeceu um mandamento.

Quando morreu, no seu falecimento,
a morte, essa ilustre convidada,
desfilou com ele na calçada,
vestindo seu mais novo lançamento.

E riram-se dos padres, dos rabinos...
e da eclesial hierarquia.
Entretiveram-se na zombaria
como se ambos fossem dois meninos.

E quando, finalmente, inda sorrindo,
negou-se acreditar que faleceu,
ouviu, a muito custo, a voz de Deus
dando-lhe as boas graças do divino.

Ao encontrar no céu outros ateus,
fundou o ateísmo celestino.


Imagem Google

sábado, 10 de agosto de 2013

PORQUE HOJE É SÁBADO...


FECHA A BOCA, FÁTIMA!

Orlando Silveira

Dona Fátima é senhora da mais alta qualidade: mãe prestimosa, esposa dedicada, não reclama nunca da dupla jornada de trabalho. Além disso, é quituteira de mão cheia. Seus salgados são muito apreciados no boteco do Vicente, seu marido, sujeito boa praça, mas que anda, de uns tempos para cá, com os nervos arruinados. Justamente por conta de dona Fátima.

Quem diria?

A vida tem dessas coisas. De uma hora para outra, ela, que sempre fora mulher de poucas palavras, desandou a falar, ou melhor, a pregar sem parar. Para Vicente, essa mudança súbita de comportamento se deu a partir do instante em que ela aderiu com entusiasmo estupendo a uma nova seita religiosa, onde quase nada é permitido, a não ser que favoreça o bispo. Temo pelo futuro do casamento de quase trinta anos.

“Ela quer salvar o mundo e acabar com meu negócio, com nosso sustento”, esbraveja Vicente. “Vamos viver de quê? De sua pregação contra a uca? Aonde, na minha idade, vou arrumar outra ocupação? Sempre tive boteco, não sei fazer outra coisa na vida!”

Para quem não compreende bem sua ira, Vicente explica melhor:

- Basta o sujeito encostar a barriga no balcão, para ela começar arengar: “Vai beber de novo? Não sabe que faz mal à saúde? Já fez a conta de quanto gasta? Aposto que sua mulher não tem dinheiro para comprar um chinelinho.” Se o freguês responde que ela não tem nada com isso, ela manda o homem beber no bar do concorrente. Se o cidadão pede umas fichas de bilhar, ela desatina de vez: “Credo! Além de beber, joga! E ainda tem que pagar cerveja, porque perde todas as apostas. É mau jogador, ruim de taco.” Pode uma coisa dessas? Não pode. Ainda mato esse bispo. Ou me desgarro de Fátima.


Imagem Google



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

PARABÉNS, JOÃO PESSOA, PELOS 428 ANOS!!!

Praia do Cabo Branco – Foto: Reginaldo Marinho
AS FÉRIAS EM JOÃO PESSOA

Autor: Merlânio Maia

Quem quiser ver a beleza
Maior que existe na Terra
E quão grande é a natureza
Com tudo o que ela encerra
Visite a Nordestina
Paraíba pequenina
Tão cativante e tão boa,
Tão espiritualizada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

Veja o Sol nascer primeiro
Na América do Sul
E o vento correr fagueiro
Na imensidão azul
Veja o mar que se alteia
Em onda e beija a areia
E nas pedras se abalroa
Deixando a praia espumada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

E as praias maravilhosas
Cabo Branco, Tambaú,
De Manaíra a Formosa
De Jacumã à Acaú,
Da Penha, Bessa ou Lucena
Que você sentirá pena
Perdê-las por coisa à toa
Se o Mar é coisa sagrada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

Lá o Sol nasce no Seixas
E se põe em Jacaré
A impressão que nos deixa
É que aumenta a nossa fé
Nasce ao mar, morre no rio,
Qual sereno desafio
Que o Criador abençoa
Quer ver terra iluminada?
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

As águas de Picãozinho
São lindas de apaixonar
Vá de lancha ou de barquinho
A família em alto mar
Com crustáceos coloridos
Peixes mansos e enxeridos
Passe o dia numa boa
Vivendo a vida sonhada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

Vá lá ver lindas Igrejas
Quão bela é a cidade antiga
A cultura lá sobeja
Comprove e depois me diga
Se é ou não é verdade
Para não deixar saudade
Não esqueça da patroa
Pois se quer vê-la encantada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

Venha ver nossa Lagoa
Visitá-la vale a pena
Que à noite é linda coroa
De uma luz tão serena
De dia é lago espelhado
De palmeiras rodeado
Tão linda que atordoa
Quer vê-la fotografada?
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

À tardinha veja o Sol
Se pondo cheio de luz
Nas águas do Paraíba
Onde o dourado reluz
Ao Bolero de Ravel
É um pedaço do céu
Que se vislumbra da proa
Haja emoção derramada!
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

Terra de Augusto dos Anjos
De Elba e Jackson do Pandeiro
Sivuca com seus arranjos
Zé Ramalho e o companheiro
Canhoto da Paraíba
Chico César sempre em riba,
Vital Farias que entoa
E haja valores na estrada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa

Eu mesmo Merlânio Maia
Canto só pra convidá-lo
E viajaria de Arraia,
De jumento ou de cavalo,
Quem sabe até mesmo a pé
Pois é grande a minha fé
De receber gente boa
Se a vida é pra ser amada
Então não perca por nada
As férias em João Pessoa



domingo, 4 de agosto de 2013

PRESENTE DE DOMINGO...

LUIZ GONZAGA: 24 ANOS DE SAUDADE

Pedro Paulo Paulino

Salve Sua Majestade,
Gonzaga, Rei do Baião.
Salve treze de dezembro,
Data Magna do Sertão.
Salve Exu tão venerado.
Salve doze, ano sagrado.
Salve, ó dia que trouxeste
Para o povo brasileiro
Gonzagão, o verdadeiro
Embaixador do Nordeste.

Salve o Baião, salve o Xote,
Salve o Coco e o Xaxado.
Salve o fole de oito baixos
Pelo velho pai tocado.
Salve o povo nordestino,
Conselheiro e Virgulino,
Santana e Seu Januário,
O Padim Ciço Romão,
Salve, salve Gonzagão,
Por este seu centenário.

Gonzaga do Nascimento,
Luiz de Santa Luzia,
Nosso Rei iluminado
Nasceu neste santo dia.
A carreira desse artista
Foi brilhante qual a vista
Da própria Luzia Santa.
É mês também de Jesus,
Por isso em tudo tem luz
Que Luiz Gonzaga canta.

O Nordeste está em festa,
Todo o Brasil comemora.
É centenário de Lua,
O Baião sorri e chora.
Repentistas violeiros,
Cantadores e vaqueiros,
Artistas do nosso povo,
Juntos, numa sinfonia
Dão vivas para este dia:
Gonzagão nasce de novo,

Para cantar mais cem anos
No meio da nossa gente,
Vivo sempre na memória,
No coração de quem sente
Amor por este Nordeste
Que tu, Gonzaga, fizeste
Ser mais rico e mais feliz,
Mais alegre e colorido
E bem mais reconhecido
Pelo resto do País.

Assum Preto, mesmo cego,
Hoje canta sem parar,
A Acauã, neste dia,
Já não pára de cantar.
Rolinha Fogo Pagou
Com Sabiá se juntou,
Veio o Pássaro Carão...
Toda voz hoje se solta,
Asa Branca também volta
E canta pra Gonzagão.

A Carimbamba encantada
Também faz a sua festa.
A Mãe-da-lua dolente
Pra Gonzaga faz seresta.
Azulão e Bacurau,
Juriti, João-corta-pau,
A Peitica e a Sururina,
Hoje cedo se levantam,
Em concerto todos cantam
Pra maior voz nordestina.

Estradas, rios e matas,
Pra Luiz cantam também.
Há uma salva de apito
Vinda lá do velho trem.
Tem cordel lido na feira,
Tem Samarica Parteira
Tem rabeca e tem viola.
Dentro da programação
Tem até competição
De Siri jogando bola.

Cego Aderaldo, no céu,
Com Zé Dantas, compõe hino;
Humberto Teixeira escreve
Junto com Zé Marcolino.
D. Helena se avizinha
Para assistir Gonzaguinha
Num solo emocionante...
E o céu se descontrai
Quando ele canta com o pai
"A vida do viajante".

Vem Coronel Ludugero
Mais o Jackson do Pandeiro.
Vem o Noca mais Julinho
Ary Lobo forrozeiro.
Padre Vieira, também,
Filosófico lá vem,
Junto com Frei Damião.
Crentes, ateus e profanos,
Todos festejam cem anos
Do nosso Rei do Baião.

Aqui na terra, a Jurema,
O Pau d'Arco, o Umbuzeiro,
Somam seu perfume e cores
Ao verde do Juazeiro.
Trazendo seu relinchar,
Vem também comemorar
O Jumento nosso irmão.
E todos, num só cenário,
Dão vivas ao centenário
De Luiz, Rei do Baião.

Gonzagão do Pernambuco,
Gonzagão do Ceará,
Gonzagão das Alagoas,
Rio de Janeiro e Pará,
De São Paulo e da Bahia,
Gonzagão de simpatia,
De sentimento profundo,
Gonzagão lá do estrangeiro,
Gonzagão tão brasileiro,
Gonzagão de todo mundo.

Gonzagão de Januário,
Gonzagão Rei Majestade,
Monarca cuja coroa
Foi sua simplicidade.
O Gonzagão que hoje é cem
E cem por cento também
Artista gênio do povo,
Com a voz e a sanfona,
Hoje e sempre emociona,
Com seu canto belo e novo.

Todo inverno bom de safra
E toda seca inclemente
Foram pelo velho Lua
Decantados vivamente.
Na tristeza e na alegria,
Seu canto é sabedoria,
Por isso Luiz Gonzaga
No tempo não tem limite,
Seu nome é sempre um convite
Vivo que jamais se apaga.

Não convém qualquer requinte
Para louvar Gonzagão,
Porque seu nome já rima
Com a rima do sertão.
E aqui no meu Ceará
Gonzagão sempre estará
Com a gente andando a pé,
Junto a Humberto Teixeira,
Cantando em noite fagueira
A “Estrada do Canindé”.

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, morreu no dia dois de agosto de 1989.


sábado, 3 de agosto de 2013

PORQUE HOJE É SÁBADO...


Jorge meu irmão,

são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês. Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir andar, nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho-da-puta é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo, daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho. A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão

Caymmi


Pequena homenagem de Fábio Coutinho e da Outras Letras ao centenário de Jorge Amado no dia 10 de agosto de 2012.