sábado, 28 de maio de 2011

PORQUE HOJE É SÁBADO...

VOU DANADO PRA CATENDE

Leonardo Dantas Silva

Houve um tempo em que o poeta Ascenso Ferreira fascinava todos os recifenses com as suas estórias.

Ascenso é, na vida boêmia do Recife, um personagem à procura de um autor. Falta, ainda, como também acontece com o poeta Eugênio Coimbra Júnior e com o advogado Demócrito de Souza, quem se dê ao trabalho de catalogar as suas diferentes estórias, a fim de reuni-las em livro.
Registra, o também poeta Mauro Mota, uma história contada pelo vizinho e amigo de Ascenso Ferreira, Durval Mendes, de um atropelamento de que foi vitima o nosso personagem:

Andava Ascenso pelas ruas do subúrbio, displicente e desajeitadamente, quando, ao atravessar uma rua, sem olhar para qualquer lado e muito menos para o chão onde pisava, foi alcançado por um carro que vinha em velocidade moderada.

Com a “colisão”, lá se foi ao chão o “gigante”, de mais de cem quilos “arrumados” em cerca de dois metros de esqueleto, encimado por um chapéu do Chile de mais de meio metro de diâmetro.

– Todo aquele homenzarrão terminou por ir de encontro ao calçamento.

Caído, o poeta esbraveja, com aquele vozeirão conhecido por todo Recife boêmio:

– Socorro! Me acudam!

– Levei uma pancada na cabeça e fraturei a base do crânio!

– Vou morrer… Estou perdendo a consciência e vejo tudo escuro!

– Vou morrer!

Mais do que depressa o poeta é socorrido pelo vizinho que o leva, no próprio veículo causador do acidente, para o Hospital do Pronto Socorro, na Rua Fernandes Vieira.

Aos berros, o poeta entra no hospital, pondo em rebuliço toda a equipe médica de plantão que, quase a um só tempo, queria socorrer Ascenso.

Figura estimada de todo o Recife, logo se formou uma roda de médicos e acadêmicos, procurando atender o poeta de maneira mais prestimosa possível.

Feitos os exames, o experiente  profissional chegou ao diagnóstico:

Ascenso não tinha nada, tão somente medo.

E, para provar que o velho boêmio estava em pleno uso de memória, fez um desafio:

– Gosto muito de seus poemas, disse o médico. Será que o senhor poderia recitar uma para nós? O senhor ainda sabe algum de cor?

Falando pausado, com a voz de menino chorão, o poeta interrogou:

– Meu nego, qual que vosmicê deseja ouvir?

– Trem de Alagoas, respondeu o médico, por certo oriundo da “Terra dos Marechais”.

– Então, lá vai:

O sino bate
O condutor apita o apito
Solta o trem de ferro um grito
põe-se logo a caminhar
– Vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
Com vontade de chegar.”

Dando inflexão às palavras. Recitando com aquela entonação rítmica só conseguida por ele, de modo a dar vida aos seus versos, o poeta reanima-se: Levanta a voz, sustenta a entonação, os decibéis tomam conta de todo o quarto e fluem pelo corredor. Médicos e acadêmicos vêm ao seu encontro para escutar o seu recitativo:

– Mergulham mocambos
Nos mangues molhados,
Moleques mulatos
Vêm vê-lo passar
– Adeus
– Adeus

Ascenso levanta-se da cama, ganha o corredor, acende um charuto e continua no seu recitativo.

Sem esquecer uma só letra de sua pernambucaníssima obra.

Altivo, já caminhando com passos largos, continua a declamar:

Cana caiana,
cana roxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar…

E ao chegar à porta do hospital, o poeta vai finalizando o poema:

– Adeus, morena do cabelo cacheado!

E não mais voltou ao Pronto Socorro.




3 comentários:

PEDRO PAULO PAULINO disse...

Excelente essa história, que já nasceu pronta. Coisas de poeta, vindas da esfera do mundo fantástico. Parabéns pela postagem, própria mesma do sábado. É uma virtude tornar pública a originalidade de certos gênios imerecidamente nem tão conhecidos.

Fatita Vieira disse...

PPP,

Obrigada pela visita e pelos parabéns.

Ascenso era uma figura e tanto! E Leonardo é muito talentoso.

Abraços!

Fatita Vieira disse...

De Leonardo Dantas Silva, por email:

Gratíssimo Fátima,

por suas atenções.

Leonardo