sábado, 15 de janeiro de 2011

ANIVERSÁRIO DA MINHA MÃE...



Hoje, 15 de janeiro, é o aniversário da minha mãe. Ela se chamava Cinira e meu avô colocou esse nome nela, tirado de uma história de um livro didático. Se ela fosse viva, faria 88 anos, mas, infelizmente, morreu aos 67 anos, em 02/11/1990, de uma hérnia estrangulada, não detectada a tempo pelos médicos, o que a fez ter infecção generalizada e morrer após 3 dias no hospital. Morreu na UTI, mas lúcida e falando comigo, mesmo entubada. 

Aos 25 anos, na Rua Nova, no Recife.

 Minha mãe era baixinha, media só 1,51cm e gordinha, isso depois de casar e ficar grávida, pois solteira, pesava 40kg e tinha um corpinho e umas pernas de dar inveja (vejam a foto), mas pensem numa baixinha e gordinha valente! Enfrentava qualquer marmanjo de 1,90cm sem pestanejar. Uma vez, ela enfrentou o marido de uma vizinha, um cabra grande, forte, esquizofrênico, que queria matar a mulher numa das crises, porque ela pulou o muro e se abrigou na minha casa com medo dele. Mamãe o pôs para correr!

Quando o meu tio Luís, irmão dela, que era militar da Aeronáutica, matou a mulher por acidente, comprovado perante o Juiz pela própria mãe da mulher dele, mamãe enfrentou o delegado que levou o meu tio preso, por não ter chamado a Aeronáutica para levá-lo, o que é o procedimento correto para os militares. Depois de ouvir cobras e lagartos da minha mãe, o delegado não teve outra alternativa, senão cumprir a obrigação dele.

Mas a mulher braba era um doce de criatura. Alegre, prestativa, amiga, sempre pronta a ajudar quem precisasse. Duvido alguém chegar à nossa porta pedindo uma esmola para ela negar. Nunca! E falava pelos cotovelos!

E que mãe incrível ela foi para o seu casal de filhotes. Nunca deixou de comemorar nossos aniversários. Ela mesma fazia o bolo confeitado e todos os docinhos e salgadinhos. Lembro de um piano que ela fez para mim. Mandou papai encomendar uma bandeja em forma de piano de cauda e fez tudo direitinho, sem nunca ter feito um curso de confeitaria. E ficava até altas horas da noite preparando tudo para a festa.

Também fazia aniversários e casamentos das minhas bonecas e das minhas amigas. Sentava horas à máquina de costura fazendo roupinhas para as minhas bonecas. Ensinava nossos deveres e ia a todas as reuniões da escola. Quando já estava no ginasial, que hoje deve ser o equivalente ao primeiro grau, ela deixava o meu irmão, que não gostava de estudar, na porta do colégio. Ele entrava e depois que ela ia embora, ele fugia para ir foguetear (que termo mais antigo!) com os amigos. Isso ela descobriu depois, mas cumpria a obrigação de mãe levando-o até à porta da escola.


Uma vez ela me deu uma lição que jamais esqueci. Quando eu estava no jardim da infância, com uns cinco anos de idade, um dia cheguei em casa com um vestidinho de boneca trancado na mão. Lembro como se fosse hoje que era um vestidinho amarelinho com flores miúdas que eu levei das bonecas da escola para vestir nas minhas em casa. Quando ela viu o vestido na minha mão e eu confessei de onde tinha tirado, ela me levou de volta para a escola e me fez devolver o vestido para a professora e pedir desculpas pelo meu erro. Bela lição!

Mas era muito mole comigo e meu irmão. Quando fazíamos as coisas erradas em casa ela dizia sempre: “quando seu pai chegar eu vou dizer”. Não era essa a forma correta de educar. Devia corrigir a gente, como ela fez com a história do vestidinho da boneca, na hora! Meu pai que é calmo, mas fica brabo se pisar nos calos dele, chegava em casa cansado, com fome e ouvia mamãe buzinando nossas traquinagens no ouvido dele e não dava outra: tome lapada de cinturão na gente! Meu irmão, que era muito danado, apanhou que só!

E sempre foi uma mulher dedicada ao meu pai, que era e é uma pessoa muito decente. Eles brigavam porque ela tinha gênio forte e falava o que lhe vinha à cabeça, mas nunca os vi brigar por ciúmes, pois meu pai nunca deu motivos a ela para isso.


Ele trabalhava como contínuo no Banco Lar Brasileiro, nós morávamos longe e éramos muito pobres. O fogão da nossa casa era de barro, à carvão, mas nunca meu pai chegou em casa na hora do almoço para não encontrar a comida pronta, para que ele pudesse voltar a tempo para o trabalho. E era uma ótima cozinheira! Adorava cozinhar e inventava comidas para o nosso deleite.

Era um pouco hipocondríaca, mas melhor assim que ser como papai, que nunca diz o que sente e já passou por situações difíceis por causa disso.


E eu tenho grandes amigos em SP e em outros lugares, que se hospedaram algumas vezes na minha casa (tudo isso no Recife). Ela dizia que não ia paparicar ninguém, que não ia fazer nada, mas quando eles chegavam, ela os tratava a pão-de-ló. Taí Pepê, um grande e querido amigo de SP, há 33 anos, que o diga! Ele a chamava de Cinirinha e chama meu pai de Dema (Ademar).

E eu nunca tive segredos para ela. Contava dos meus namorados, dos problemas no trabalho, na faculdade e nunca menti, até porque mentira tem pernas curtas e a coisa que tenho mais medo na vida é ser pega em uma mentira.
 
Já faz 20 anos que minha mãe morreu, mas parece que foi ontem. Tenho muitas saudades dela, principalmente por não estar aqui quando nós temos uma qualidade e um padrão de vida melhor e por termos voltado para João Pessoa, cidade onde ela criou-se (era pernambucana de Vitória de Santo Antão) e de onde saiu em 1953, só tendo voltado a passeio, para visitar a família.


Onde ela estiver, sei que vela por nós e dei graças por ela ter morrido antes de ver o suicídio do meu irmão, fato que poderia tê-la matado, já que tinha problemas cardíacos.

Saudades de você, mamãe, muitas...

Fátima Vieira

20 comentários:

Fatita Vieira disse...

Comentário da minha amiga Madalena Andrade, do Recife, via email:

Oi Fátima!

Nem sei se este meu contato vai chegar até você, pois estou com um problema no meu computador !!!!! Mudei o Windows e não estou conseguindo operacionalizar algumas ações como enviar mensagens pois, acusa sempre um erro e só quando levar para o técnico resolver!!!

Mas, a homenagem que você fez à Cinira (sua mãe), me tocou profundamente a ponto de me fazer derramar lágrimas pela face!!! Claro que mexeu com muitas coisas minhas e aí os sentimentos afloraram! Claro as histórias do outro mexem com as nossas histórias!!!!!

A forma como você descreve os fatos ou seja, a sua veia poético-literária torna a narração dos fatos de uma leveza tal, que mesmo aqueles considerados tristes, são agradáveis em sua leitura.

Admiro muito você pela sua determinação, sua franqueza, sua fortaleza e também pela mulher dotada de uma sensibilidade extraordinária.

Fico aguardando a publicação do seu livro de contos reais e, ou histórias de vida!

Seu blog está excelente! Os blogueiros profissionais que se cuidem!!!!!!!!!!

Bjos

Madá

Fatita Vieira disse...

Querida Madá,

Comovida eu estou com tantas palavras elogiosas e sei, também sinceras, da sua parte.

Escrevi este post sobre a minha mãe com o coração, lembrando e visualizando cada um dos fatos, como se estivessem acontecendo naquele momento.

Fico muito feliz que a minha emoção tenha feito você também se emocionar.

Quem sabe um dia eu publique um livro com meus contos reais?

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Também por email, Selma Castro escreveu:

Querida Fátima - Nossas histórias de vida são parecidas. Nesta homenagem a sua estimada mãe - uma mulher guerreira - meu coração foi mexido porque faz 23 anos que minha mãe partiu para outra Dimensão... mas, parece que foi hoje... saudades...quanta falta... e você uma filha exemplar que continua transmitindo histórias e exemplos de vida edificantes, orgulho-me em ser sua amiga.

Bjs,

Selma

Fatita Vieira disse...

Querida Selma,

Orgulhosa sou eu de ser sua amiga, pelo excelente trabalho que faz na ABRAz-PE.

Agradeço imensamente as suas palavras e peço a Deus que a abençoe e ilumine sempre, para que continue a sua luta em prol dos portadores de Alzheimer.

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Da minha amiga do Recife, Chrystiane Souza Costa:

Fatinha,

Quando eu era pequena (na idade) tinha uma poesia que já nem me lembro do autor, mas que falava sobre saudade:

Saudade ventura ausente,
um bem que longe se vê,
uma dor que o peito sente, sem saber como e porquê...
Uma vontade de estar perto, de quem estar longe de nós...
Um aí que não sei ao certo se é um suspiro ou uma voz...

O fato é que tem saudades eternas... mas lindas! Fiquei bastante emocionada, até lembrei "da minha aurora perdida, dos tempos que não voltam mais"...

Deus sabe de todas as coisas, e, sabe a razão de ter recolhido a sua mãe no tempo dele!

Beijos

Chrys

Fatita Vieira disse...

Chrys,

Você é um doce de pessoa, sempre com palavras bonitas para mim.

Agradeço de coração, sempre!

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Da minha amiga Carla Oliveira, via email:

Fátima, que lindo texto, cheio de saudade boa!
E que bom poder conhecer um pouco de sua mãe, e assim conhecer também um pouquinho de sua história!
Eu sempre digo que não tem coisa melhor do que 'mãe' e 'filho'!
Beijão,
Carla

Fatita Vieira disse...

Carlinha,

Saudade boa, é isso mesmo o que sinto da minha mãe.

Claro que a vida não são só coisas boas, mas quando as boas superam as ruins, são elas que permanecem.

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Da minha amiga Nayara, casada com meu amigo Pepê:

Fafá,

Muito linda a homenagem a sua mãe, pena que eu não a conheci!

Bjs
Nayara

Fatita Vieira disse...

Nayara,

Se tivesse conhecido Cinirinha, como Pepê a chamava, ia gostar dela e ela de você, tenho certeza. Ainda mais sendo casada com Pepê, que ela considerava como filho. Você ia ser outra filha para ela.

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Da minha amiga Lúcia calixto:

Oi amiga,
Que bela e inesquecível mãe que você teve. Aliás, continua tendo pois o espírito é eterno e ela sempre estará te amando e protegendo.
Você é uma cópia fiel do que ela foi, não nega que é sua filha pois tem todas as virtudes e bondades (e também a brabeza, quando necessário - rsrsrsrsrsrs). Muito linda a homenagem que você fez a essa bela criatura. Ela merece! Parabens e grata pelo envio do texto. Eu jamais esquecerei a minha que mesmo não tendo estudo foi um anjo em nossas vidas, trabalhadora incansável, amiga, etc. Teve uma vida muito sacrificada (16 filhos para criar, pense...).
Eu não sabia que você teve um irmão que se suicidou. Que dor!
Beijos carinhosos,
Lucia

Fatita Vieira disse...

Querida Lúcia,

Minha mãe foi uma mulher simples, mas muito ciosa do seu papel de mãe e mulher.

Sou muito feliz por ela ser minha mãe.

Obrigada pelo carinho.

Beijos!

Fatita Vieira disse...

De Neuzinha, minha companheira no Grupo Mistura Fina:

Fatima, cara amiga. Estou tão em falta com você, logo você, sempre presente em nosso cotidiano para alegrar, esclarecer , adornar, romancear ....
Por tudo isto e outros motivos mais, seguem minhas impressões sobre sua produção. Vão no atacado e via MF, embora tenha tentado (em vão) fazê-lo utilizando os recursos do seu blog. Sou mesmo uma anta digital!
Mas voltando às impressões, gosto muito dos seus textos, soltos, sinceros, carregados de emoção. Aprecio este seu jeito natural de falar de coisas pessoais, de suas vivências. Parabéns ! Ah, agradeço pelas belas liçoes de simplicidade e descomplicação e pelas dicas (fui correndo ler a vovó Neuza, a quem muito apreciei), pelos mimos de domingo, pelas chamadas a atuação!
Eu, na minha contida mineirice, me encontro nas suas aventuras e, talvez, a qualquer dia, por descuido ou poesia, ouse falar de meus amores e até de meus dissabores.
Segue, junto com este, um bom cheirinho das montanhas de meu estado.
Em atraso mas com muiiiiiiiito carinho, Neuzinha

Fatita Vieira disse...

Neuzinha,

Tome coragem e comece a escrever sobre seus amores, dissabores e tudo o mais que lhe apetecer. Talento para isso sei que você tem, basta ver as ótimas respostas ou postagens que faz no Mistura Fina, sempre acompanhadas de humor, sensibilidade e poesia.

Agradeço, de coração, os elogios e volte sempre aqui!

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Da minha amiga Vera Lúcia:

Oi querida amiga, hoje a tarde entrei no seu blog e sinceramente fiquei com vontade de ter conhecido sua Mãe que pessoa incrível, o jeito também que você narrou tudo, um jeito tão gostoso que fiquei com vontade de ler mais.
Mas agora sei que tens muitas coisas dela, é alegre, falante, prestativa, amiga e verdadeira, pois foi tudo isto que senti quando lhe conheci.
Sabe toda esta história de sua Mãe, me fez recordar meu Pai que também é falecido a 10 anos e quanta falta me faz. Mas dou graças a Deus por ter a Mãe ainda comigo espero que por muito tempo ainda, assim como ainda tem seu Pai.
Mas como é maravilhoso quando pessoas partem e deixam tantas lições de vida e tantas recordações boas, é como se agente voltasse no tempo e vivesse tudo outra vez, mas desta vez só em pensamentos.
Bjsssssssssss fike com Deusssss.

Fatita Vieira disse...

Vera,

Eu sou parecida mesmo com a minha mãe, em muitas coisas, boas e ruins. As ruins são a brabeza, o gênio forte, a passionalidade. Mas me gosto assim também. Não me imaginaria uma pessoa calma e passiva. Jamais!

Vi você e sua mãe juntas aqui em João Pessoa. Achei-as muito alegres e parecem ter uma ótima sintonia. Conservem e aproveitem muito isso, porque a vida é breve. Me arrependo de algumas coisas que não curti com a minha mãe, porque ela foi embora um pouco cedo. Mas fazer o quê? É a vida...

Agradeço muito as suas palavras e o seu carinho.

Beijos!

Fatita Vieira disse...

Do meu amigo Pepê, citado nesse post:

Oi Irmãzona!

Li agora suas palavras sobre a Cinirinha e estou emocionado por ter lembrado de mim nesse texto de muito Amor e Carinho.
Parabéns por essa Mãe maravilhosa e esse Dema também maravilhoso.

Beijos,

Fatita Vieira disse...

Querido Pepê,

Mamãe tinha um carinho especial por você, assim como papai também tem. Eu, então, nem preciso dizer nada.

Conheci a sua família e eles sempre me trataram muito bem, como se fosse parte dela. Jamais esquecerei isso e tenho saudades do Nilsão e da D. Eny, que, como minha mãe, já estão lá em cima velando por nós.

Também gostamos muito da sua querida Nayara. É um doce de pessoa, além de amiga e carinhosa.

Agradeço as palavras de carinho para Cinirinha e Dema.

Beijos!

Marivete disse...

Vc descreveu muito bem a sua mãe, lembro-me perfeitamente dela, apesar da vida ter feito com que nos afastássemos. Sempre gentil e alegre com todos que iam na casa de vcs.
A morte é assim mesmo, a dor passa mas a saudade fica para sempre. E as boas lembranças.

Fatita Vieira disse...

Pois é, Mari, mamãe era muito atenciosa mesmo.

Sempre vou ter boas saudades dela.

Beijos!