domingo, 6 de janeiro de 2013

PRESENTE DE DOMINGO...



AO NOVO RECIFE

João Cabral de Melo Neto

Embora não me sinta o direito
de te dizer sim, não, dar conselho,

conto com que todo esse progresso
... que derruba o onde fui (e ainda levo)

faça mais fácil o mão-a-mão
de mão a mão distribuir o pão,

e que tua gente volte ao “bom dia”
de quando lá toda se sabia.




sábado, 5 de janeiro de 2013

PORQUE HOJE É SÁBADO...



SILÊNCIO, HOSPITAL

Chico Anysio
 
Nos primeiros tempos de casamento ele aparentava uma saúde de ferro mas, de uns anos pra cá, mostrava-se tão frágil, tão suscetível às doenças, que Dona Belinha, sua esposa, intranqüilizava-se cada vez mais.

— Qualquer coisinha o Pirilo hospitaliza-se — choramingava às amigas. — Tão frágil, tão doentinho...

E assim era. Por um simples sintoma de gripe ou resfriado, o Pirilo pegava um pijama, escova de dentes, pente e chinelos, metia-os numa maleta branca e hospitalizava-se.

— O que é que você tem, Pirilo? — perguntava a esposa preocupada, vendo o marido fazer a mala para mais uma ida à casa de saúde.

— Nada, minha velha.

— E se não tem nada, por que você vai para o hospital, Pirilo? — insistia Dona Belinha, mais preocupada do que nunca.

— Com saúde não se facilita. Não tenho nada agora, mas estou esperando uma gripe de uma hora para outra.

E se internava por quatro, cinco dias. Proibia as visitas e não aceitava flores ou maçãs. "Se eu morrer, não quero ninguém no velório. Na doença e na morte, longe os parentes", era a teoria que defendia e a que a família obedecia.

— Chama-se isso de hipocondria — explicou um médico a quem Dona Belinha secretamente visitou:

— Hipocondria?

— É uma ansiedade habitual relativa à própria saúde — decifrava o médico. — É muito comum, um caso assim. Há pessoas que não vivem sem tomar remédio. Seu marido é um caso desses. Só que em estado mais grave, porque ele chega a ir para o hospital. Mas não se preocupe. Os hipocondríacos são os que vivem mais.

— Isso pega, doutor? — inquiriu Dona Belinha, quase desejando que sim, para poder acompanhar o marido, de quem sentia muita falta, durante os dias de nosocômio.

— Pegar, não digo, mas quem convive com um hipocondríaco, sendo de espírito fraco, pode-se contagiar por esta mania.

E ela muito rezava e pedia que lhe fosse dado este contágio.

— Belinha, traz a mala.


— Pra onde você vai, Pirilo?

— Vou-me hospitalizar.

— O que é que você está sentindo?

— Hoje, fazendo as unhas, tirei sangue da cutícula. Isso pode infeccionar, dar tétano, gangrenar, sei lá. Com saúde não se brinca.

E, de mala branca na mão e infalível chapéu preto à cabeça, lá ia o Pirilo para o Hospital dos Estrangeiros, onde tinha conta corrente (pagava por semestre) e apartamento quase fixo.

— O apartamento de sempre, Sr. Pirilo? perguntava a enfermeira, como se aquilo fosse um hotel.

— Não. Desta vez quero um no terceiro andar, com vista para a encosta.

E por uma semana, muitas vezes, curtia o seu hospitalzinho, de camisola e tudo, com exames de pressão arterial, termômetros sob a axila, colheita de urina, sangue, fezes, escarro, etc. Uma semana depois, sentindo-se recuperado, voltava ao seio da família, dizendo-se outro homem.

Ao mesmo tempo em que os filhos cresciam, desenvolvia-se a hipocondria do Pirilo, que se internou pelos motivos mais burlescos, de tão banais: furúnculo, cisco no olho, mau jeito no braço, aerofagia, topada.

A conselho médico a mulher nem tocava mais no assunto, tentando meter na cabeça do marido que ele não sofria de coisa alguma ("Isso pode piorar, porque ele fica irritado e..."). Ao ver Pirilo chegar e entrar em casa sem tirar o chapéu preto, a mulher já sabia que era caso de hospital. E, por conta própria (disso o médico não teve culpa), já até colaborava com a hipocondria do marido.

— Não está passando bem, Pirilo?

— Ainda bem que você notou. Hoje arrotei duas vezes, depois de tomar uma Coca-Cola. Faz a mala.

E o pijama, com pente, chinelo e escova de dentes, era enfiado na mala branca que Pirilo conduzia ao Hospital dos Estrangeiros, onde era mais conhecido do que muitos dos médicos que lá operavam ou davam plantão.

— Terceiro andar, para a encosta?

— Segundo andar, de frente.

— 214 — informava a enfermeira, dando-lhe a chave.

Tantas foram as vezes que Pirilo se internou que, ultimamente, já ia sozinho da portaria para o quarto. Ir uma enfermeira com ele para quê, se ele conhecia os corredores e apartamentos mais do que a maioria delas? De hospital, ele dava aula. E era um custo para aceitar a alta do médico.

— Pode ir embora hoje, Sr. Pirilo.

— De jeito nenhum. Antes de quinta-feira ninguém me tira daqui.

— Mas o senhor já está bom. Os gases...

— Os gases acabaram, mas... e essa unhazinha?

— Que tem a unha? — perguntava o médico, segurando-lhe a falange do pé que Pirilo lhe exibia.

— Repare na unha, veja bem.

— Está bem.

— Ora, doutor, enganar ao Pirilinho? A unha está encrava, não encrava. Antes de quinta-feira eu não saio, a não ser que a unha se resolva.

De tanto Pirilo se ausentar para os hospitais, apareceu um arquiteto desquitado com ótimos planos e projetos para Dona Belinha com os quais ela concordou, de tanta distância que já sentia do marido hipocondríaco.

Saiu ganhando, pois amava agora um homem formado, enquanto Pirilo continuava amante de uma ajudante de enfermeira do Hospital dos Estrangeiros, que um dia dava plantão no terceiro andar, de frente para a encosta, no outro dia no segundo andar, de frente para a frente...

Os hipocondríacos merecem cuidados!

Texto extraído do livro “O batizado da vaca”, Editora Círculo do Livro – Rio de Janeiro, 1972, pág. 156.


Imagem Google

 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

CARO 2013...




Caro 2013, prometo estranhar, desconfiar, desacreditar...

Por Miguel Rios

Poderia prometer me mudar para melhor no novo ano. Mas talvez pise na bola, perca o interesse no meio do caminho e até piore. Poderia prometer mudar o próximo. Mas quem sou eu para tanto. Apenas prometo achar estranho o dito óbvio, não dar tanto crédito a propagados acertos, desconfiar dos corretos, ouvir os incorretos, peneirar e ver o que fica, se fica.

Prometo mesmo é me pôr na dúvida, me confrontar, me achar errado, me culpar, me redimir, me absolver, me achar certo e voltar a me achar equivocado e me reconvencer que não.

Prometo julgar, que todo mundo julga, consciente ou não. Entretanto, prometo não ser severo ao extremo, nem condenar com rispidez, que uma amargura e uma arrogância a mais não me interessam.
Prometo, a princípio, estranhar.

Estranhar o que cobra e se cobra roupa de grife, o que acha que a etiqueta carimba valor em gente, o que se orgulha de frisar nome e sobrenome da calça jeans que comprou. Nome e sobrenome que nem melhoram nem pioram ninguém, mas que servem como outdoor de (auto) afirmação para uns e outros. Tipo comprador de carro escolhendo o modelo para impressionar na porta dos eventos.

Estranhar o que estabelece padrão único de comportamento e bom gosto. O que quer repaginar pessoas para acolhê-las. O que prega estéticas absolutas, estilos de vestir, de comer, de ouvir, de falar. O que tenta enquadrar, resgatar. O que quer despagodear, desfunkear, desbreguear, desorkutizar e aí sim aceitar. Tipo jesuíta catequizando o índio para salvá-lo.

Estranhar e suspeitar do que cobra sinceridade, que jura franqueza, mas fica no adequado. O sincero, sincero mesmo, requer coragem sobre-humana para dizer e ouvir. O adequado dá refugos aqui e ali para conviver, até respeitar, ou, menos nobre, para agradar a claque.

Estranhar e lamentar pelo totalmente pragmático e pelo totalmente sonhador. Não há como. Nem é bom que haja. Bom é o tempero misto do “é assim!” com o “será que é mesmo?” e mais o “como seria se fosse de outro jeito?” Certeza completa, sobre tudo, desmotiva, atravanca. Devaneio em excesso, convenhamos, cansa.

Estranhar e ter demasiado cuidado com o muito correto e o totalmente incorreto. O que se vigia para evitar sair do prumo e o que saltita fora da linha de segundo em segundo. O que acredita rir sem nunca ofender e o de riso exclusivo tirando o couro do outro. Impossível. Se um é o ódio enraizado, conservador, disfarçado, o outro é o risco da paranoia, desembocando no mau humor, no faro viciado por preconceito, pior, no ódio reverso. Prometer equilíbrio é fácil, tentar também, consegui-lo é onde fica o nó, que tantos alardeiam ter desatado,sentados no banco vítreo da hipocrisia.

Estranhar e olhar atônito para o modelador de sexualidade. O que quer gêneros estáticos, sem oscilar.

Que acha que mulher tem que ser fêmea no que se cravou ser fêmea  e homem tem que ser macho no que se cravou ser macho. Que lésbica tem que ser fêmea e gay tem que ser macho. Que trejeitos e pintas são desnecessários, absurdos, que transexualidade é um exagero, que homossexualidade deve ser na discrição. Para não chocar, para ser acolhido mais fácil.

Prometo estranhar e ter receio do neomoralista. Tipo o cheio de boas intenções, o que se diz liberal, preocupado com a sociedade, e que pede novela pudica para não chocar as famílias, como se nas famílias não houvesse problemas nada pudicos de novela. Tipo o que se diz inclusivo, mas abomina beijo gay em público para não influenciar as crianças, como se a heterossexualidade fosse fraca a ponto de ser abandonada pela visão de um beijo entre iguais. Tipo o que se acha defensor das mulheres ao criticar a periguete, anônima ou famosa, sem reconhecer que a liberdade dela de usar, transar, não usar e não transar, o que, com quem, quantos quiser, é mais que um direito.

Prometo estranhar meu olhar adestrado. Rever os que desobedecem à lógica imposta do que é ser bem visto. Os marcados como cafonas, deseducados, mal vestidos, bregas, avacalhados, palhaços. Bichas, sapatões, travestis, putas, escandalosos. Andróginos, poliamantes, assexuados, pegadores.  Os vergonhosos.

Não prometo que não vou estranhá-los. Nem prometo que não vou me chocar, nem achar desagradável uma coisa ou outra. Nem que não vou mentalmente criticá-los. Muito menos que não haverá recaídas para descumprir as promessas acima.

Desligar-se do zumbido uníssono é complicado, espinhento, muito pretensioso. E a colmeia zumbe ainda mais alto nestes tempos de redessocialismo.

Prometo esforço para entender, para desentender e reentender. E relax, sem culpar, nem me culpar, quando for demais para mim.

Fonte: http://ne10.uol.com.br//coluna/o-papo-e-pop/noticia/2012/12/28/caro-2013-prometo-estranhar-desconfiar-desacreditar-389784.php