sábado, 8 de dezembro de 2012

PORQUE HOJE É SÁBADO...



ASCENSÃO

Antonio Prata


Faz apenas um segundo que Woopy Goldberg terminou de anunciar: "and the Oscar goes to João Arlindo, from Brasil! With the film “Batuque”, mas ele permanece imóvel. E com uma ereção daquelas não vai levantar mas nem fodendo — me perdoem o trocadilho. Com a calça fininha do smoking alugado, e de cueca samba-canção então... Seria um vexame sem precedentes, compartido via satélite por mais de um bilhão de pessoas de Belford Roxo a Pequim, passando pela casa da tia Conceição, que acaba de dar o primeiro soluço de felicidade, e pelo bar do Pedrão, onde nesse instante todos os amigos se levantam das cadeiras e pulam de alegria. João terá que tomar alguma atitude. E rápido. Mas qual?

Já se passaram três segundos desde que anunciaram seu nome. Três segundos é pouca coisa. E o tempo que leva para a pessoa perceber que é com ela, abraçar o companheiro do lado, esticar as pernas e começar o longo caminho da poltrona até o palco, tremendo que nem vara de marmelo (segundo dizem aqueles que já viram uma vara de marmelo). E o que demora para a tradução simultânea (que nunca é simultânea, e às vezes tampouco tradução) repetir o nome do ganhador, do filme e do país de origem do filme. Mas depois de seis, oito segundos, a coisa já vai começar a ficar esquisita. Por que o cara não levanta? — se perguntará o quase um quarto da humanidade que acompanha o acontecimento. A câmera já está mostrando João, e em no máximo dez segundos Rubens Ewald Filho fará algum comentário. A Woopy Goldberg — quem sabe? — também. E aí?

Já se passaram cinco segundos e João sente-se como naquelas cenas em que o herói vai correndo pelo píer e não sabe se salta ou não salta no barco que zarpa, levando sua amada, ou como o jogador que caminha em direção à bola e tem que escolher de que lado baterá o pênalti. A situação de João é ainda pior do que as descritas, porque não se trata de optar entre duas possibilidades, mas de inventar sua própria saída — e será que existe alguma? 0 tempo que leva um pinto da ereção completa à broxada total é superior ao que se pode esperar na poltrona, depois que já anunciaram que você é o ganhador do Oscar sem causar estranhamento. Além do mais, as únicas coisas que passam pela cabeça de João são os rios de suor que descem, caudalosos, em direção às costas.

Sete segundos. Rubens Ewald Filho comenta que João Arlindo, "o filho pródigo da cinematografia nacional, está tão emocionado diante do primeiro Oscar brasileiro, que mal consegue levantar-se da poltrona!". Mal sabe Rubens que, caso João se levante agora, mais olhos verão a sua pródiga ereção do que viram o homem pisar na lua!

Nove segundos. 0 coração de João está a 210 bps, e o fluxo sangüíneo só faz perpetuar seu estado de desesperação. Isso é o Oscar, meu amigo, não é uma festa de debutantes em Mogi das Cruzes! É o maior ritual global o circo do Império e, na situação em que se encontra João será comido pelo sarcasmo de mais de um bilhão de leões-telespectadores! E entrará para a mitologia contemporânea como "o cineasta que teve uma ereção no Oscar", e assim será comentado nas rodas globais: "Oh you mean: that brazilian director who had an erection during the Oscar ceremony? Yes, of course I remember! How could I forget?!" "Hombre, João Arlindo es el tío aquel de la erección, verdad?" "Hein kraft nich däs ereckcionaz, nun?", e durante algumas semanas seu nome será mais digitado na Internet do que o de Britney Spears, do Michael Jackson e da Madonna juntos. João sabe muito bem disso.

Onze segundos. Woopy Goldberg vai de novo ao microfone: "João, are you there?!". Como conseqüência 1 bilhão, 234 milhões, 187 mil e 27 pessoas riem, pois sentem compartilhar a estranheza diante daquele premiado que não se levanta. Essas 27 são os amigos lá no bar do Pedrão, que ainda se abraçam e agora pulam ao som de “Aquarela do Brasil”, oportunamente colocada pelo próprio Pedrão (versão do Canal 100, por Valdir Calmon e sua orquestra). Tia Conceição, por entre um soluço e outro, observa preocupada a demora do Joãozinho em sair da poltrona. Rubens Ewald Filho comenta: "Gente, será que tá acontecendo alguma coisa com nosso querido João Arlindo?".

Antes que Rubens Ewald acabe seu comentário, no entanto, o cineasta brasileiro já sumiu do enquadramento da câmera que até então o mostrava: entre o segundo 12 e o 13 João Arlindo se atirou da poltrona e estatelou-se no chão do corredor. Agora, sobre o tapete vermelho ele se contrai, esperneia e baba, da forma que sempre ouviu dizer que fazem os epilépticos. Diante do silêncio de um quarto da humanidade, da Woopy Goldberg, do Rubens Ewald Filho e da tia Conceição, o primeiro cineasta brasileiro a receber um Oscar é retirado de maca. E, a despeito da insistência do pessoal da emergência em esticá-lo, ele consegue colocar-se de ladinho, e é assim, em posição quase fetal, que some pelas coxias do enorme teatro, sem deixar notar a ereção. Tia Conceição não agüenta de desespero e morre do coração. O pessoal do bar do Pedrão, perplexo, continua abraçado e olhando o telão. Será só no segundo 124 que esboçarão um movimento, quando o celular do Serginho, ligado no sistema vibratório, tremer no bolso de sua calça. Do outro lado da linha, uma voz muito conhecida dirá: "Caralho, Serginho, cês não vão acreditar no que me aconteceu!".

Da página 19 do livro "As pernas da tia Corália", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2003.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DIA INTERNACIONAL DO VOLUNTARIADO


Tenho a honra de ser voluntária na Quimioterapia do Hospital Napoleão Laureano em João Pessoa, pela Rede Feminina de Combate ao Câncer na Paraíba.


domingo, 2 de dezembro de 2012

PRESENTE DE DOMINGO...



EU AMO TUDO O QUE FOI

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa, 1931


Imagem Google

sábado, 1 de dezembro de 2012

DIA MUNDIAL CONTRA A AIDS


PORQUE HOJE É SÁBADO...




Zuenir Ventura

UM IDOSO NA FILA DO DETRAN

Zuenir Ventura

"O senhor aqui é idoso", gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão na porta do Detran da Avenida Presidente Vargas, apontando com o dedo o tal "senhor". Como ninguém protestasse, o policial abriu o caminho para que o velhinho enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira.

Olhei em volta e procurei com os olhos 0 velhinho, mas nada. De repente, percebi que o "idoso" que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.

Até hoje não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos "entra"; dos 50, quando, deprimido, salte que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na "terceira idade". Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de "idoso", ainda mais numa fila do Detran.

Na hora, tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo foi de lhe dizer: "idoso é o senhor seu pai. O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu pra ver minha identidade? E 0 guarda paspalhão, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? Será que era tão evidente assim? Como além de idoso eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: "esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!" Mas que nada, nem um pio.

O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima — do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: "Isso é uma sacanagem comigo", me disse, "eu não mereço." Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: "Mas ninguém lhe dá isso." Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me "dar" um pouco menos.

Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: "Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas." Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: "O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?"

— Não, sou gestante — tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: "não tenho mais, tenho só 65 anos."

O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. "Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15", já ouvi essa discussão.

Enquanto espero ser chamado, vou tentando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Ai, se não me falha a memória — e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade —, me lembro que Fernando Henrique, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, entre companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais em fila do Detran, ou estão quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Janio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou com outro — de ano, meses ou dias —, e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.

Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? "No Detran", diz uma voz. Ah, sim. "E o atendimento?" Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar em fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade.


Este texto foi publicado no livro "Crônicas de um fim de século", Ed. Objetiva - Rio de Janeiro - 1999 - pág. 25; e extraído do livro "As cem melhores crônicas brasileiras", Ed. Objetiva - Rio de Janeiro - 2007 - pág. 265 - organização de introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.